As doenças cardiovasculares (DCV) são a maior causa de morte prematura na Europa e em países em desenvolvimento. São também uma importante causa de incapacidade e contribuem substancialmente para o aumento dos custos em saúde. No mundo, as doenças cardiovasculares são responsáveis por 17 milhões de mortes anualmente, e no Brasil, segundo dados do Datasus de 2000, são a principal causa de morte.
A ocorrência em massa das DCV se relaciona fortemente com o estilo de vida e com fatores psicológicos e bioquímicos do indivíduo, que são perfeitamente modificáveis. Por esse motivo, o Centro Clínico Gaúcho avaliou em seus colaboradores fatores como o hábito de praticar atividade física, o nível de stress, a presença ou ausência de dieta aterogênica, tabagismo, sexo, idade, entre outros. Sabemos que as alterações no estilo de vida reduzem a morbidade e a mortalidade das DCV, principalmente em pacientes de alto risco.
Para detectar oportunamente os fatores que determinam se uma pessoa está ou não sob alto risco de desenvolver DCV, são necessários principalmente instrumentos adequados e acurados de mensuração do risco (Escore de Risco de Framingham, por exemplo), associados à avaliação clínica individualizada do paciente. Além disso, é preciso também tempo para o tratamento e aconselhamento adequados, assim como a continuidade dos cuidados. Facilitar o acesso do colaborador a programas de controle do risco também auxilia na diminuição do mesmo. Sabendo disso, além da realização dos exames laboratoriais, também calculamos o Escore de Risco de Framingham para cada um dos colaboradores, e orientamos individualmente, através de consulta médica agendada, todos os colaboradores cujo Escore de Risco foi alto.
Fatores de risco:
Do ponto de vista epidemiológico, esta expressão é utilizada para definir a probabilidade de que indivíduos sem uma certa doença, mas expostos a determinados fatores, adquiram essa patologia. Os fatores que se associam ao aumento do risco de contrair uma doença são chamados fatores de risco.
Por outro lado, há fatores que conferem ao organismo a capacidade de se proteger contra a aquisição de determinada doença, sendo chamados fatores de proteção. (INCA,2007) Entre eles, citamos o consumo regular de frutas e verduras, a prática de exercícios físicos moderados na maior parte dos dias da semana, etc.
Se os fatores de risco fossem eliminados através de mudanças no estilo de vida, pelo menos 80% de todas as doenças do coração, derrames e diabetes tipo II poderiam ser evitadas. Além disso, mais de 40% dos cânceres poderiam ser prevenidos.
A avaliação dos colaboradores do Centro Clínico Gaúcho foi feita da seguinte maneira:
· questionário autoaplicável para avaliação de fatores de risco, baseado no NCEP ATP III (National Colesterol Education Program – Adult Treatment Pannel III.
· avaliação presencial dos valores de pressão arterial, peso, altura e circunferência abdominal.
· exames laboratoriais coletados na própria empresa para avaliação da glicemia de jejum e do perfil lipídico.
Mais de 60% dos colaboradores completaram a avaliação e seus dados puderam ser analisados para determinar o risco cardiovascular global e a prevalência individual de cada fator de risco.
Resultados e discussão:
Durante muito tempo, prevaleceu a ideia de que as doenças cardiovasculares eram geneticamente determinadas, e que muito pouco poderia ser feito para sua prevenção. Com o passar do tempo, no entanto, percebeu-se que agir sobre os fatores de risco para DCV não só ajudava na sua prevenção, como diminuía substancialmente a mortalidade associada a elas.
Alguns fatores sócio-demográficos influenciam no aumento do número de indivíduos acometidos por doenças crônicas, entre eles, o envelhecimento populacional, a maior urbanização, a crescente prevalência de obesidade e sedentarismo, bem como a maior sobrevida dos pacientes crônicos.
Existem evidências de que as alterações no estilo de vida, com ênfase na alimentação e na redução da atividade física, estão associadas ao acentuado aumento na prevalência do diabetes, por exemplo. Os programas de prevenção primária do diabetes têm se baseado em intervenções na dieta e na prática da atividade física, visando combater o excesso de peso. Os resultados do Diabetes Prevention Program, por exemplo, demonstraram redução de 58% na incidência de casos de diabetes através do estímulo a uma dieta saudável e à prática de atividades físicas, sendo essa intervenção mais efetiva do que o uso de medicamentos. Outro estudo americano mostrou que uma redução do peso em torno de 3 a 4kg em quatro anos reduziu a incidência do diabetes em 58%.
Dados do Consenso Latino-Americano de Obesidade mostraram que, no Brasil, 53% da população estava acima do peso. Nos EUA, em 2000, observou-se que 19,8% da população encontrava-se na faixa de obesidade. Nosso estudo encontrou uma prevalência de 12% de obesidade, bem menor do que os valores da literatura para o Brasil, talvez pelo fato de se tratar de uma população jovem (a maioria dos colaboradores possui entre 25 e 34 anos).
Quase 50% das mulheres e cerca de 30% dos homens avaliados pelo nosso estudo apresentaram circunferência abdominal aumentada. Em geral, os estudos mostram que a medida da circunferência abdominal associada ao IMC fornece informações adicionais e complementares para a estimativa do risco cardiovascular. Não existe uma informação consistente sobre qual dessas medidas antropométricas é superior. A OMS recomenda o uso da circunferência abdominal como um indicador adicional de fatores de risco metabólicos.
A prevalência do tabagismo na população em geral fica entre 30 e 35% – ou seja, 1/3 da população mundial adulta é fumante –, valores bem maiores do que o encontrado em nossa população (18%). Esse valor pode ser justificado pelo trabalho do departamento de medicina preventiva da empresa em estimular a cessação do hábito de fumar entre seus colaboradores.
Quanto ao sedentarismo, um estudo envolvendo 37 estados americanos encontrou prevalência de 58% desse fator de risco na população, enquanto outro estudo, em São Paulo, mostrou que o sedentarismo atingiu 69% da população. Esses valores ficaram bem próximos do que encontramos em nossa amostra (53%), apesar de estarmos avaliando uma população jovem e predominantemente feminina. Pesquisas recentes mostraram que o exercício pode ter efeitos benéficos antes que seus resultados se tornem aparentes, e pode ter impacto no metabolismo da gordura abdominal antes que a perda de peso ocorra.
Um estilo de vida sedentário está associado com o dobro do risco de morte prematura e com o aumento do risco cardiovascular. Evitar um estilo de vida sedentário durante a vida adulta pode aumentar a expectativa de vida total e a expectativa de vida livre de doenças do coração. O objetivo maior é pelo menos meia hora de atividade física na maioria dos dias da semana, sem esquecer, no entanto, que qualquer aumento na atividade física está associado a benefícios mensuráveis para a saúde.
A prevalência de hipertensão arterial varia amplamente no mundo, de cerca de 4% na China, até perto de 20% nos EUA. No Brasil, os dados variam muito, inclusive de uma região para outra. No Sul, os índices variam de 1,28% a 27,1%. Nesta avaliação, encontramos 6% da população com valores de pressão arterial acima dos parâmetros.
A evidência de que diminuir o colesterol diminui o risco coronariano é inequívoca. Uma redução de 10% no colesterol total é seguida por uma redução de 25% na incidência de doença arterial coronariana em cinco anos, e uma redução de mais ou menos 40mg/dl no LDL-c (colesterol ruim) é seguida de uma diminuição de 20% nos eventos cardiovasculares.
As dislipidemias, causadas principalmente pelo elevado consumo de gorduras saturadas de origem animal, determinam, anualmente, 4,4 milhões de mortes, sendo responsáveis por 18% das doenças cerebrovasculares e 56% das doenças isquêmicas do coração (WHO, 2002).
O Escore de Risco de Framingham foi o instrumento utilizado em nosso estudo para a mensuração do risco cardiovascular em 10 anos, associado à avaliação individual do risco para minimizar as limitações do Escore de Framingham (consideramos também a história familiar de doença cardiovascular, dislipidemias severas, valores de triglicerídeos, obesidade abdominal e correção do risco para mulheres). A avaliação é diferenciada para homens e mulheres e sabe-se que quanto mais alta a pontuação obtida no escore, maior o risco de DCV.
O principal objetivo da estratificação dos pacientes com risco indefinido é avaliar a sua chance absoluta de ter um evento cardiovascular em 10 anos, possibilitando seu controle e prevenção.
Medicina Preventiva
A prática da medicina preventiva está voltada para a necessidade de identificar pacientes de alto risco para eventos cardiovasculares em todas as idades. Nenhum fator de risco individual pode predizer a chance de eventos cardiovasculares se analisado sozinho, mas a combinação de informações sobre determinado paciente se torna um instrumento acurado para a análise de risco cardiovascular. Levando-se em conta que é frequente a existência de três, quatro ou mais fatores de risco em um mesmo paciente, altamente relacionados entre si, não é difícil compreender a necessidade de intervenções múltiplas e continuadas.
A melhor maneira de avaliar o risco cardiovascular de uma população é associar o
Escore de Risco de Framingham ao julgamento clínico, principalmente em pacientes com outros fatores de risco independentes como obesidade, circunferência abdominal aumentada, aumento de triglicerídeos e história familiar positiva para doença arterial coronariana.
Partindo do princípio que somente pela educação é possível efetivamente prevenir doenças, o desenvolvimento de programas de saúde de caráter preventivo, com enfoque na mudança do estilo de vida, pode ser um meio eficaz para sensibilizar o indivíduo quanto à modificação de hábitos de vida nocivos à saúde.
Dessa maneira, apesar das doenças cardiovasculares serem consideradas doenças mais prevalentes na população idosa, aproximadamente 50% dos diagnósticos e 15% das mortes por DCV, acontecem em pessoas com menos de 65 anos de idade. Ainda mais significativo, muitos adultos jovens sem evidência clínica de doença cardiovascular tem dois ou mais fatores de risco que os predispõem a eventos clínicos subsequentes e morte no curso da vida. Em adultos jovens aparentemente saudáveis, esses fatores de risco freqüentemente permanecem subdiagnosticados e consequentemente não controlados. Em nossa população alvo, composta principalmente por indivíduos jovens, essa informação se torna muito importante, e norteia os programas de prevenção de doença e promoção de saúde do Centro Clínico Gaúcho.
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